Entrevistas

Em entrevista para o Gatito, Dra. Carolina Pimenta fala um pouco de sua carreira como médica veterinária e responde algumas dúvidas sobre os cuidados com nossos animais.

Carolina Pimenta - Médica Veterinária

Carolina Pimenta - Médica Veterinária

Porque você quis ser veterinária?
Na verdade antes eu não queria ser veterinária, eu queria ser médica. Minha família toda é de médicos, meu avô – que é o pai da minha mãe – me inspirava. Na verdade meu avô morreu quando eu tinha 2 anos de idade, só que eu sempre o tive como um modelo. Meu avô morava no interior e era um médico muito bem visto lá, minha mãe falava muito bem dele, e eu sempre gostei disso, eu sempre achei a medicina uma profissão muito nobre. Sempre gostei dessa parte de biológica de cuidar das pessoas, só que minha avó por parte de pai ficou doente quando eu estava no primeiro ano do ensino médio. E até então eu iria fazer medicina, estava me dedicando, estava estudando pra isso. Ela ficou doente, teve apendicite,  foi para o hospital e teve que internar, fez cirurgia. Na verdade a cirurgia deu certo, mas teve uma complicação que foi parar no CTI. Ela esteve pra morrer e a gente teve que ir pra lá pra se despedir dela lá no CTI. E quando eu vi aquele ambiente hospitalar, ela no CTI toda entubada com aquele tanto de aparelho, me deu um pânico e eu vi aquilo ali não era pra mim. Sabe quando você cai na realidade de que aquilo ali era muito diferente do que você achou que fosse? O ambiente hospitalar com um parente seu ali envolvido, aí que cai a sua ficha que a realidade não é tão próxima da teoria que você está acostumado a ver. Ai eu comecei a pensar em outras possibilidades que não fosse a medicina. Eu sempre gostei muito de ciências biológicas, mas queria outra coisa que eu pudesse mexer com vidas, mas que não fosse relacionada com o humano porque isso me marcou demais, ver a minha avó ali. Acabou que ela ficou bem, foi pra casa, mas desenvolveu um Alzheimer, acabou morrendo de Alzheimer depois, não por causa da apendicite. Mas aquilo pra mim foi o marco que eu resolvi não fazer medicina, mas sempre quis mexer nessa área de vidas e de cuidar de outras pessoas ou animais. E sempre gostei de bicho. Desde pequenininha eu pegava os bichinhos de rua e levava pra casa e minha mãe desesperada: o que você está fazendo com esse bicho aqui, você não vai trazer esse cachorro pra casa, eu não vou poder cuidar de jeito nenhum. Chegava lá chorando: mãe, mas o cachorrinho tá morrendo de fome, eu tenho que levar comida. Eu sempre fui. Via um cachorrinho na rua, descia com comida, com água. Eu sempre tive muito mais compaixão com bicho (nem sei se é errado) do que com gente, não sei porquê, eu sempre tive muita compaixão com bicho. Qualquer bichinho que tinha lá perto de casa eu queria cuidar, eu queria dar comida, água, aí eu comecei a pensar: nossa, é se eu fizesse essa parte de medicina de animais? Senti essa proximidade e resolvi fazer veterinária onde foi a escolha da minha vida, paixão da minha vida. Não me vejo fazendo outra coisa, não me arrependo de não ter feito medicina, acho que foi a escolha que eu fiz certa. Não é tão bem remunerado quanto medicina, isso é óbvio, mas eu acho que não seria tão realizada se eu fizesse medicina. Acho que eu ficaria satisfeita de cuidar de vidas de humanos também, mas acredito que não teria a recompensa afetiva que eu tenho de cuidar de bichos, eu gosto demais. Nem todo mundo tem o privilégio de trabalhar com o que gosta e eu, graças a Deus, trabalho com uma coisa que eu adoro, faço com prazer, é muito bom. Nisso eu sou privilegiada, eu gosto.

Carolina Pimenta - Médica Veterinária

Carolina Pimenta - Médica Veterinária

Dentro da veterinária você tem alguma preferência dos animais?
Eu tenho mais proximidade com cachorro, aprendi mais com cachorro porque tenho cachorro há muitos anos. Desde 2003 tenho o Floc, então vem esse carisma com cachorro a mais tempo. Tive contato com cachorro mais cedo. Minha mãe tem medo de gato, ela nunca teve costume, nunca teve contato, minha mãe sempre teve cachorro, a vida inteira dela desde pequena. Então com isso tive mais proximidade de ter cachorro. Fui ter contato com gato mesmo na faculdade. Fui aprender a gostar, fui aprender a ter um carisma especial com os gatinhos na faculdade. Agora contato mais íntimo foi com cachorros, mais pelo tempo de convívio com Floc e com outros cachorros, mas eu gosto dos dois: gosto de cachorro e de gato. Mas tenho mais tempo de lidar com os cães e neste momento eu sei cuidar mais é de cão e gato. Não arrisco muito nas outras espécies. Tem gente que cuida de ave, de tartaruga, de réptil. Eu, só de cão e gato mesmo.

E isso na veterinária são especialidades igual a gente tem nas outras áreas também?
São especialidades. Tem gente que mexe com animal silvestre, por exemplo: ave, réptil, aí é outro ramo totalmente diferente. Cada espécie tem sua particularidade. É igual aquilo que eu te falei, por exemplo: se você tentar tratar um cão igual você trata um gato ou vice-versa, você vai pisar na bola feio porque uma espécie é totalmente diferente da outra, tem medicação que você pode usar no cão e que você não pode usar no gato, então você tem que estudar cada espécie separado. Não tem como você tratar como se fosse um só. A ave é totalmente diferente de réptil. Então é mais assim: animais silvestres, animais de companhia como cão e gato. Ah, tem os roedores também. Roedores ainda tem uma proximidade maior de cão e gato do que os répteis e as aves, mas é um pouco diferente. Então são áreas diferentes como o cavalo, ai nem se fala a diferença, é muito grande. No curso a gente aprende tudo, lá na UFMG. O curso é muito voltado para grandes animais. A gente vê muito mais eqüinos e bovinos, principalmente bovinos, do que pequeno porte, cão e gato. Então quem quer mexer com cão e gato tem que pegar firme em estágio. Eu desde o primeiro período fiz estágio em clínica porque eu tinha certeza que era isso que eu queria mexer (então você tem que direcionar para aquilo), agora quem sabe que quer mexer com grandes já está bem ali na faculdade, porque o curso todo é direcionado. A maioria das matérias é de grandes, entendeu? Tem gente que quer fazer veterinária mas entra sem saber com o que quer mexer. Na veterinária tem jeito de você formar se você quiser e nunca nem encostar em um animal. Você pode fazer isso porque tem a área de inspeção, por exemplo. Tem inspeção de carne, inspeção de leite, inspeção de derivados também que é ovos, mel, pescado. Tem muitas áreas que, se você quiser, nem encosta em um animal. Pode fazer concurso também, tem vários concursos: Ministério da Agricultura, tem várias áreas. Eu até cheguei a ter um certo interesse nessa área de leite, de inspeção de leite. Achei interessante mas nunca gostei muito de laboratório. Essa área envolve muito laboratório e acho muito maçante você ter que ficar lá sentado e ficar fazendo aquelas experiências o dia inteiro. Eu gosto de coisa mais prática no dia-a-dia, não gostava muito dessa área não.

Carolina Pimenta - Médica Veterinária

Carolina Pimenta - Médica Veterinária

Uma curiosidade que tenho é que muitos remédios usados para os pequenos animais como os cães e gatos são remédios de uso humano. Há uma necessidade de pesquisa na área veterinária para os laboratórios investirem especificamente?
A maioria dos remédios são sim de uso humano. Tem muitas medicações que eu acho que deveriam ser mais direcionadas para cão e para gato, principalmente para gato porque eu acho que tem uma deficiência nessa área, não só medicação em si para usar em determinadas patologias, bom como o meio de administração. Porque eu acho que gato é um animal que tem as particularidades da espécie. Por exemplo: o líquido é mais difícil porque ele pode salivar, pode babar o líquido. Comprimido não é todo proprietário que consegue administrar. Tem aquelas pastas que são mais fáceis e você pode mandar manipular. Então eu acho que o gato é uma espécie que tem muito onde investir em termos de medicação de todo aspecto: vermífugos, antibiótico de todo tipo. Cachorro como é mais fácil de tapear, tem o paladar mais aguçado, mas não é tanto como o gato. Agora o gato é mais difícil. Se você for tentar misturar o comprimido em alguma coisa ele não vai comer. Isso é mais complicado. Mas a maioria das medicações tem atendido, a gente consegue direcionar o tratamento com as medicações que a gente tem em humano. Mas acho que deveria ser feito estudos em cães pra gente ter certeza daqueles efeitos colaterais, se são aqueles mesmos, para direcionar um pouquinho a medicação específica pra cão, específica pra gato e o modo de administração, porque como estou falando, gato é muito complicado.

Carolina Pimenta - Médica Veterinária

Carolina Pimenta - Médica Veterinária

Tem um mito que a gente ouve falar, muitas vezes grande parte das pessoas não gostam de castrar os animais – cães e gatos – porque falam que faz mal para o animal ou então, é um mito mesmo; a pessoa acha que pode surgir uma doença. Isso é uma afirmação falsa?
Eu não sei se isso está muito relacionado com classe social, com nível, se as vezes a pessoa acha que vai perder, no caso do macho, a masculinidade. Acho que isso está muito mais relacionado com o macho, né? Acha que vai castrar, que vai tirar os testículos e que vai perder a masculinidade e não tem isso.
Muita gente fala que o cão é pra vigiar a casa e ele vai ficar manso demais.
Não. Isso na verdade não ocorre. Se você castrar o animal depois de uma determinada idade (a gente espera até uns 6 meses de idade), tanto o gatinho quanto o cão, eles já desenvolveram as características sexuais secundárias deles, já está relacionado no caso, com a testosterona no macho e com o estrógeno na fêmea, então eles já desenvolveram as características que eles precisavam relacionadas com o hormônio, relacionadas ali com aquele órgão sexual dele. Então se você tirar o órgão sexual não vai ter nenhuma relação dele ficar afeminado ou nada desse tipo, mesmo que seja castrado antes. O problema da castração precoce é ele não ter o desenvolvimento adequado porque ele realmente precisa desse hormônio pra ter um desenvolvimento adequado. Então não tem nada a ver, isso é mais uma lenda mesmo. Acho que no caso do gato principalmente é necessário a castração porque o gato tem o hábito de ir pra rua, no caso do macho de procurar as fêmeas e de brigar com outros machos por causa de território de fêmea, então pode voltar machucado, doente, adquirir doenças como a AIDS felina a leucemia felina que são doenças sérias. No caso da fêmea que o cio é a cada 21 dias, a preocupação é imensa, né? O ciclo é muito curto e daí a pouco ela está com vários filhotes. Tem um filhotinho, daí a pouco está no cio de novo e vem uma nova cria.

Em cães e gatos, qual é o número de gestações no ano que a fêmea pode ter?
No caso da cadelinha, geralmente é de 6 em 6 meses. Algumas entram de 4 em 4 meses ou um pouquinho menos. No caso das gatas, é de 21 em 21 dias então é só fazer as contas de quantas podem dar em um ano que são várias. No caso do gato é terrível, é igual coelho.

Carolina Pimenta - Médica Veterinária

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Qual é o período ideal de desmame tanto de gatos quanto de cães?
Cerca de 21 dias a 30 dias já está adequado para se começar com a ração. Ração molhada, você pode amolecer na água morna e já introduzir. As vezes você pode deixar o filhote amamentando e comendo a ração. Depois você faz o desmame completo, deixa só na ração. Com 40 a 45 dias eles já tem que estar só na ração. Por isso que a gente começa aí com uns 25 a 30 dias introduzindo a raçàozinha com leite e aí depois separar. Se você deixar a mãe com a ração eles vão ficar indo na mãe. Inclusive ela vai continuar a produzir leite. Se você quiser que ela pare de produzir o leite, você tem que tirá-la deles porque senão ela vai continuar com estímulo de produção de leite enquanto eles tiverem fazendo a sucção. Então, separa a mãe deles e eles vão continuar comendo só a ração.

Qual é o período ideal para separar os filhotes da mãe quando são para adoção (gatos)?
Com uns 40 dias já dá pra separar. De 40 a 45 dias que é a época da primeira vacina, que geralmente você já está fazendo adoção ou já fazendo a venda de filhotes no caso de quem é criador, já é uma época adequada para gatos. Antes disso eu acho precoce, não tem necessidade não. A mãe perde o apego rápido. Depois de uma determinada época, o fato de eles estarem amamentando começa a machucar a mãe porque eles já estão com dentes e começa mais a machucar do que ser um fato agradável pra mãe. Ela vai começar a ficar incomodada com aqueles filhotes grandes querendo amamentar nela, então é bom cortar esse vínculo mesmo. Os filhotes no começo sentem um pouquinho a falta da mãe, mas também perdem o vínculo rápido.

Carolina Pimenta - Médica Veterinária

Carolina Pimenta - Médica Veterinária

Qual é o sonho que você ainda quer realizar em relação a profissão escolhida?
Eu queria ter uma clinica ou pet próprio. Eu já pensei nisso, hoje eu não penso tanto. Atualmente estou pensando mais em direcionar-me mais para a parte de diagnóstico por imagem. Não sei se é bem um sonho, é uma meta. Eu vou fazer isso. Então daqui a pouco tempo quero estar fazendo ultra-som e daqui há um pouco mais de tempo quero estar fazendo eco-cardiograma porque quero direcionar uma parte para diagnóstico por imagem. Então se Deus quiser, daqui a pouco vou ficar um pouco mais especializada porque acho muito legal essa parte só do diagnóstico. Sempre tive vontade de ter uma coisa minha, mas não sei se é uma coisa que eu vou realizar. Tenho vontade, mas as vezes num futuro próximo, porque na Clinica do Gutierrez estou entrando como sócia e pode ser que seja mais difícil conciliar lá com alguma coisa minha. Se tiver mais alguém para entrar comigo aí tenho que ver, porque teria que ficar nos dois lugares e posso sobrecarregar um pouco. Mas não é uma coisa que eu tirei de cabeça. A curto prazo quero me especializar. Já fiz residência, que era um sonho, e consegui realizar. Quero fazer ultra som e depois o eco cardiograma que é mais difícil porque é o ultra som do coração. Se Deus quiser até o final do ano estarei fazendo ultra som, agora o eco é mais para o ano que vem.

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